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Uma nova vacina contra o papilomavírus humano (HPV) está trazendo esperança para mulheres em todo o Moçambique, oferecendo a perspectiva de um futuro livre do cancro do colo do útero. Inicia-se um novo capítulo na luta contra essa doença, com uma oportunidade promissora de interromper um dos males mais letais antes que se instale.
No entanto, essa promessa está sob ameaça.
Em muitas comunidades, é natural que novas vacinas sejam recebidas com dúvidas e alguma hesitação — sentimentos que, por vezes, evoluem para mitos profundamente enraizados. Um exemplo preocupante é a falsa associação entre a vacina contra o HPV e a infertilidade nas raparigas. Em localidades como Vanduzi e Sussundenga, na província de Manica, essas crenças tornam-se barreiras ao progresso, transformando a luta pela saúde numa verdadeira batalha pela verdade.
À medida que esta protecção que salva vidas chega às comunidades, também enfrenta resistência. Nestes contextos, alguns homens — que muitas vezes detêm o poder de decisão no seio familiar — passam a ver a rapariga vacinada como inadequada para o casamento. E como o casamento continua a ser amplamente considerado um sinal de sucesso, mudar esta narrativa em Manica e em Moçambique de forma mais ampla é uma tarefa urgente.
É onde encontramos Yara*, menina de 11 anos de idade e aluna de 6ª classe. Yara Vive há uns quilómetros da vila sede de Vanduzi, na fomosa zona “Cruzamento”. Hoje é uma activista de luta contra o cancro do colo do útero que ceiva a vida de milhares de mulheres.
Ela já sabe que na sua comunidade, falar de vacinar é um problema. Porém, ela decidiu entrar na luta de falar verdade sobre vacinas com outras meninas da sua comunidade e escola. A sua intenção é contribuir para que as meninas da sua comunidade não apanhem o cancro do colo do útero.
A verdade oculta
Nos distritos de Vanduzi e Sussundenga, as barreiras para administrar vacinar contra HPV e outros problemas de saúde são uma dura realidade. Elas escondem e ocultam uma verdade: o facto de que meninas vacinadas tem menos riscos de apanhar doenças e virus de HPV que causa o cancro do colo do útero. O câncro do colo do útero é o mais comum entre as mulheres que vivem com o HIV (HIV 15% de prevalência em Moçambique). As mulheres HIV positivas têm maior risco de infecção persistente pelo HPV e seis vezes mais probabilidade de desenvolver o câncro do colo do útero e desenvolver a doença numa idade mais jovem. Yara é uma das meninas que pode apanhar o virus, mas hoje ela já sabe da realidade.
Moçambique tem uma população de 9,5 milhões de mulheres com 15 anos ou mais que estão em risco de desenvolver câncro do colo do útero. As estimativas actuais indicam que, a cada ano, 5.325 mulheres são diagnosticadas com câncro do colo do útero e 3.850 morrem da doença.
A dura verdade é de que a maioria das mulheres afectadas por este cancro são jovens, com baixo nível de educação que vivem nos países mais pobres do mundo. Muitas são também, mães de crianças pequenas cuja sobrevivência é comprometida pela morte prematura das suas mães.
Diálologo comunitátio
Combater mitos e hábitos culturais enraizados é uma batalha contínua, sobretudo em locais como Vanduzi e Sussundenga, onde o acesso à informação é limitado e as taxas de analfabetismo continuam elevadas.
Yara é uma entre muitas em situação de risco, mas ela compreende os factos. Vive essa realidade, em que as raparigas enfrentam inúmeros obstáculos para aceder à verdade e proteger-se contra os riscos à saúde. Felizmente ela participou de um workshop do projecto sobre Iniciativa de Aprendizagem entre Pares para Melhorar a Cobertura da Vacinação contra o HPV Província de Manica.
“Aprendi sobre questões da vacina e sua importância para adolescentes. É importante vacinar para ter saúde. Vou falar com todas as meninas. As vacinas são confortáveis para nós pois não vamos ficar doentes”, disse a menina de olhos relusentes e firmes.
Era um sinal de que a sua participação no workshop serviu de catalizador para compreender e agir para espalhar a palavra sobre a importância de vacinar. E claro, está ciente de que não vai ser um trabalho fácil. Por isso ela considerou que “pediu para dexarem crianças vacinar porque a vacina salva vidas”. Na sua luta ela tem um sonho: ser “Quando eu crescer quero ser enfermeira”. Com esta formação, ela acredita que vai salvar mais meninas na sua comunidade.
União que fará diferença
A luta da menina Yara é de muitos. Aliás, nos dois workshops organizados pela VillageReach participaram profissionais de PAV (Técnico de medicina preventiva, ponto focal do PAV na unidade sanitária, técnicos de vigilância epidemiológica), Agentes Polivalentes de Saúde (APSs) e membros da comunidade (Professores, lideres comunitários, pais e cuidadores de raparigas do grupo alvo).
No distrito de Sussundenga converamos com Godifri Tomás Eduardo, responsável distrital pelo envolvimento comunitários.
“O workshop foi importante pois tivemos a oportunidade de aprender sobre como podemos criar soluções para combater o cancro criado pelo HPV. Devemos ter não só estratégias para vacinação mas também podermos alcançar as meninas que têm estado de fora devido aos mitos na comunidade. Aprendemos como ter soluções, como por exemplo, criar comités das mulheres para o profisisonal de saúde formar o comité em matéria da importância da vacinação de HPV. Tratando-se de um comité comunitário, os membros podem levar essa informação aos demais elementos da comunidade. Ou seja, não só informação do técnico mas também da comunidade que passa a se envolver na mobilização”.
Para eliminar os mintos, o técnico entende que é preciso intensificar o ensimento da importância de vacinação. Uma das ideias do técnico Eduardo é criar uma rede de comunicação nas escolas que incluem directores e professores. Do mesmo modo, serão criadas condições de formação de professores em matéria de HPV.
E o pensamento de Godifri encontra suporte da senhora Marta Samuel, uma mãe de 5 filhos. Ela participou no workshop de Vanduzi na qual ela teve oportunidade de saber mais sobre o cancro do colo do útero. Por isso, ela falará com membros da comunidade para aderirem à vacinação, especialimente às mães para levarem suas meninas para vacinação”.
A forma como os dois workshops foram desenhados foi útil para facilitar a compreensão dos conteúdos ministrados.
Nilsa Mabunda, Gestor de Aprendizagem entre Pares, explicou a propósito que no workshop desenhamos juntos criarmos as possíveis soluções para lidar com os desafios da vacinação em HPV nas comunidades dos distritos de Sussundenga e Vanduzi. Em Sussundenga “osparticipantes tiveram um alto engajamento e perceber que todos eles estão com uma vontade imensa em melhorar a vacinacai em HPV e percebem o seu papel na mudança. No fim do workshop tivemos a criação de personagens , ou seja, o grupo que representa cuidadores onde tivemos 4 represententes que são figuras dos cuiadores, dos professores; do lider comunitário e a figura do técnico de saúde que provem os serviços. Analisamos todosos aspectos como acesso a informação.
Já em Vanduzi, no segundo workshop, fez-se uma co-criação para obter uma solução de forma conjunta, de modo a responder aos desafios que encontrados. Os técnicos participantes do workshop perceberam que fazem parte da solução. E assim eles assumiram o projecto. Mais uma janela aberta para que mais meninas possam ser vacinadas e evitar o cancro do colo do útero.
As equipas locais de saúde, as escolas e os líderes comunitários continuam a coordenar acções de sensibilização, partilhar informações correctas e acompanhar a cobertura vacinal. Juntos, esses pequenos passos sustentados têm o poder de transformar perceções, aumentar a adesão e, em última instância, salvar vidas nestes distritos e noutros locais.
Para raparigas como a Yara, a vacina contra o HPV representa uma esperança real de que esta longa luta pela saúde possa estar perto do fim. As pequenas sementes lançadas hoje pelos desmistificadores do HPV podem criar raízes profundas e comunidades mais saudáveis no amanhã.
*Nome alterado para proteger o anonimato.