Newsroom & Blog

Dez 15, 2025   |   Blog Post

Dos Dados à Acção: Por Dentro do Workshop sobre a Vacina contra a Malária em Mocuba

Arsenio Manhice

Communications Manager, Mozambique

Quando Moçambique se tornou um dos primeiros países a introduzir a vacina contra a malária R21, em 2024, foi um momento de esperança. No entanto, a introdução de uma nova vacina nunca se resume apenas à sua disponibilidade ou à logística — trata-se de garantir confiança, transformar evidências em prática e adaptar a entrega às condições reais do terreno. Por isso, em Julho de 2025, líderes da saúde, vacinadores e parceiros reuniram-se em Mocuba, na Província da Zambézia, para um workshop de disseminação.

Os participantes juntaram-se para debater, questionar e definir prioridades sobre como agir com base nas conclusões do estudo sobre os Determinantes Comportamentais e Sociais (BeSD). O relatório destacou percepções comunitárias e barreiras nos serviços, e foi neste workshop que essas evidências foram transformadas em compromissos operacionais para a próxima fase da implementação da vacina R21.

Fundamentar as soluções na experiência da linha de frente

O workshop realizado em Mocuba teve um enfoque deliberadamente local. Trinta participantes — incluindo gestores provinciais e distritais de saúde, agentes comunitários de saúde e vacinadores — reuniram-se para reflectir sobre o que as conclusões do estudo BeSD significam na prática. Em vez de uma apresentação vertical, o workshop foi concebido como um espaço de diálogo.

O Dr. Marcos Isaías, Médico-Chefe Provincial da Zambézia, lançou o desafio inicial da sessão incentivando os participantes a tratarem os dados como ponto de partida para a acção. Na abertura do workshop, destacou a importância de analisar os resultados do estudo e apelou aos gestores do PAV para que transformem essas evidências em soluções concretas, com especial atenção à melhoria da qualidade dos dados de vacinação.

Destaques do Workshop

O workshop serviu como um fórum dinâmico para partilhar e discutir os resultados do estudo BeSD com os intervenientes mais directamente envolvidos na vacinação de crianças, garantindo que as conversas fossem baseadas na experiência prática do terreno. As contribuições de representantes provinciais, distritais e parceiros enriqueceram o diálogo, transformando os dados em estratégias concretas de acção.

O Dr. Issa Hibahimo, Gestor Provincial do PAV na Zambézia, apresentou a experiência da província na introdução da vacina contra a malária. Detalhou os preparativos logísticos, a formação dos vacinadores e as acções de mobilização social que sustentaram a campanha. Embora a formação tenha iniciado mais tarde do que o previsto, todos os vacinadores acabaram por concluir o processo, o que resultou numa forte participação durante a semana de vacinação. No entanto, desafios como o desfasamento entre o número de equipas de vacinação e os instrumentos disponíveis para registo limitaram a recolha ideal de dados.

Durante o debate em plenária, o Dr. Arlindo Banze, representante do PAV no Ministério da Saúde, observou que as conclusões do BeSD reflectem estudos anteriores, mas sublinhou a necessidade de soluções inovadoras, integradas na estratégia RED/REC, para alcançar resultados mais robustos. Apelou aos parceiros para manterem os esforços de comunicação e incentivou os distritos a reforçarem o envolvimento interpessoal para combater a desinformação e estimular a procura.

As experiências a nível distrital trouxeram uma camada adicional de aprendizagem. Em Milange e Quelimane, as equipas de saúde relataram dificuldades como cartões de saúde infantil desactualizados ou em falta, e questões recorrentes da comunidade, incluindo: “Por que a vacina contra a malária não abrange adultos?” Estas vivências evidenciam a necessidade de mensagens mais claras sobre os critérios de elegibilidade e os grupos etários-alvo, para promover compreensão e confiança.

Após o Workshop

O workshop terminou com consenso em torno de várias acções prioritárias para reforçar a introdução e expansão da vacina contra a malária na Província da Zambézia e noutras regiões do país.

Reforçar a Formação e o Desenvolvimento de Capacidades

  • Realizar a formação dos vacinadores com antecedência suficiente antes do início da campanha.
  • Reforçar que a vacina contra a malária está plenamente integrada no calendário nacional de vacinação de rotina.
  • Incluir módulos sobre identificação e gestão de efeitos secundários, bem como técnicas eficazes de comunicação comunitária.

Intensificar a Mobilização Social e a Advocacia

  • Fortalecer o envolvimento comunitário através de mensagens direcionadas aos cuidadores.
  • Envolver líderes comunitários e estruturas locais para reforçar a procura pela vacina.
  • Reforçar os esforços de advocacia junto das autoridades distritais e comunitárias.

Melhorar a Logística e a Prestação de Serviços

  • Elaborar e partilhar um cronograma claro de implementação com todos os intervenientes.
  • Expandir a capacidade da cadeia de frio, incluindo a disponibilização de frigoríficos de maior dimensão.
  • Garantir ferramentas adequadas de registo e documentação para todas as equipas de vacinação.

Reforçar a Qualidade dos Dados e o Acompanhamento

  • Realizar avaliações regulares de desempenho dos gestores distritais do PAV.
  • Implementar auditorias rotineiras de dados para corrigir inconsistências.
  • Aplicar estratégias RED/REC para integrar soluções orientadas pela comunidade de forma eficaz.

Abordar os Desafios Operacionais a Nível Distrital

  • Padronizar e actualizar os cartões de saúde infantil.
  • Comunicar de forma clara os grupos etários-alvo da vacinação contra a malária.
Por Que Isto Importa

O workshop foi importante porque foi além da simples identificação de desafios — promoveu a apropriação colectiva das barreiras existentes. Os participantes saíram com clareza sobre os próximos passos, desde o fortalecimento dos sistemas de dados até à inclusão activa dos líderes comunitários na mobilização para a vacinação. Mais importante ainda, o processo reforçou a liderança local, alinhando as prioridades distritais com os objectivos nacionais de expansão da vacina.

O encontro também destacou uma lição que vai muito além de Moçambique: a introdução da vacina contra a malária não é um evento pontual, mas sim um processo contínuo de adaptação. Requer escuta activa aos profissionais da linha da frente, envolvimento das comunidades e aperfeiçoamento dos sistemas para garantir que cada dose chegue às crianças que dela precisam.

Olhando para o Futuro

Como lembrou o Dr. Banze, do Ministério da Saúde, este é o momento de transformar as recomendações em estratégias práticas e de propriedade local. Com a vacina contra a malária prestes a ser totalmente integrada no calendário nacional de vacinação de rotina, o workshop marcou um ponto de viragem: da fase piloto para a expansão, dos dados para a entrega.

Os participantes saíram motivados e profundamente comprometidos. As suas reflexões sublinharam que expandir a vacinação contra a malária não se trata apenas da vacina em si, mas de construir relações, respeito e confiança entre os profissionais de saúde e os cuidadores.

Return to Newsroom